Leitura e alienação na era da inclusão digital

Autor: Camilo Gomes Jr.

Ray Bradbury e seu famoso romance distópico sobre uma sociedade sem livros.

Para que serve a literatura? Bem, há muitas respostas distintas para essa pergunta. Estudiosos e entusiastas da recente corrente do Darwinismo Literário, p. ex., ainda que tenham algumas divergências a respeito de certos postulados teóricos, bem poderiam respondê-la, destacando o consenso que mantêm acerca de pelo menos cinco premissas elementares: 1) a literatura advém de necessidades da natureza humana; 2) ela consegue ou tem por objetivo satisfazer tais necessidades; 3) ela é uma arte representativa do comportamento humano; 4) este, por sua vez, demonstra-se vinculado, num nível fundamental, a uma estrutura evoluída e adaptada de disposições codificadas geneticamente, e, por fim, 5) o conjunto de evidências acerca da natureza humana, que se vem cumulando em ciências diversas como a neurociência, a psicologia evolucionista, a antropologia, a ciência cognitiva etc., podem ser muito úteis ao estudo e entendimento da literatura (cf. CONDE, Miguel. Darwinismo literário, O Globo, Prosa & Verso, 30 dez. 2006, p. 01). Quanto a esse ponto, aliás, já escreveu o escritor inglês Ian McEwan, em seu ensaio “Literatura, ciência e natureza humana”:

“Não seria possível ler e apreciar a literatura de uma época muito distante da nossa, ou de uma cultura que fosse profundamente diferente da nossa própria, a não ser que partilhássemos de algum fundamento emocional comum, algum profundo reservatório de pressupostos, com o escritor. [...] [P]odemos dizer que nossa literatura humana mais exemplifica a natureza humana do que a define. Se existem universais humanos que transcendem a cultura, disso se conclui que eles não mudam, ou não mudam facilmente” (McEWAN, Ian. Literature, science and human nature. In: WELLS, Robin H.; McFADDEN, Johnjoe [Org.]. Human nature: Fact and fiction. London: Continuum, 2006, p. 47.49, tradução minha).

Ou seja, diferentemente do que afirmou Jacques Derrida em Gramatologia (São Paulo: Perspectiva, 1973), e diversos professores e estudantes de literatura passaram a repetir, como um mantra, desde então, parece haver sim muita coisa fora do texto. Tudo indica ser possível identificar o que permita fixar o sentido de um texto para além dele próprio.

Mas, enfim, o assunto sobre o qual pretendo discorrer neste texto não é o darwinismo literário — uma linha de estudos a que minha esposa é quem busca hoje se dedicar, enquanto eu apenas aprecio “de fora” —, muito menos pretendo discutir teoria da literatura. Minha intenção, na verdade, é falar da leitura. Qual a sua importância para nós, humanos em geral? Que impacto ela promove em nossa vida? Que relação teria com problemas que interessam ao humanismo secular ao qual me filio, tais como, p. ex., a discriminação, a liberdade de expressão, a consciência política, o respeito aos direitos fundamentais, o avanço do conhecimento e o amplo acesso a este?

Esse tema me veio à mente, preciso deixar claro, evocado pelo recente falecimento, no dia 5 de junho último, do escritor americano Ray Bradbury, aos 91 anos de idade. Para os que porventura não o saibam, Bradbury, autor de uma vasta obra nos gêneros fantasia, ficção científica, terror e mistério — contando 27 romances e cerca de 600 contos —, escreveu um dos romances distópicos mais conhecidos do século 20, a saber: Fahrenheit 451, publicado em 1953.

A distopia

Como muitos estão cientes, há hoje uma longa lista inumerável de romances e contos que descrevem a vida em distopias, isto é, em sociedades futuras, em realidades alternativas, ou em outros mundos, onde as pessoas se veem, quase que via de regra, sobre a opressão ou o policiamento constante de um Estado ou autoridade, que tentam cercear os direitos básicos dos indivíduos, aliená-los e condicionar suas inclinações naturais. Nessa esteira, embora nem todas as obras tenham merecido valor literário — é bom que se o ressalte —, destacam-se alguns títulos. Alguns destes acabaram mesmo se tornando em clássicos indiscutíveis, como, p. ex., Admirável mundo novo (1932), de Aldous Huxley; 1984 (1949), de George Orwell; Laranja mecânica (1962), de Anthony Burgess, e, por que não o citar também, V de vingança, a famosa série em quadrinhos, de Alan Moore, com as conhecidas ilustrações de David Lloyd, publicada em dez edições, entre 1982 e 1985, na antologia britânica Warrior, e reimpressa em nova roupagem pela DC Comics, entre 1988 e 1989.

No caso específico de Fahrenheit 451, trata-se de um romance igualmente reverenciado, embora seja uma narrativa demasiado curta, para ser franco — na edição em inglês de 1991, da Ballantine Books, que será usada como referência aqui, o livro compreende apenas 179 páginas. Este é, talvez, o maior problema da obra, já que a ação se desenrola um tanto rápido demais. Isto é, ao leitor acaba sendo dado curto fôlego para processar e aprofundar a reflexão sobre tudo o que lhe é informado, enquanto a história avança. Por isso mesmo, acredito que o livro teria ficado ainda melhor, houvesse se estendido a sua narrativa um pouco mais.

Na sociedade que, no início dos anos 1950, Bradbury projetou num futuro por vir, as pessoas vivem na alienação constante, entretidas dia após dia na frente de televisores de telas enormes, que exibem só o que é aprovado pelo governo ou atende aos interesses particulares deste. As pessoas costumam dirigir para o trabalho (ou para onde quer que vão) em altíssimas velocidades; todos quase não saem de casa ou dos locais de trabalho — ignorando, portanto, muitos dos detalhes do que há no mundo “lá fora”, em especial as belezas naturais —; as conversas são sempre fúteis, superficiais; as opiniões, rasas; os indivíduos em suas relações, tornam-se cada vez mais hedonistas e vazios de sentimentos e emoções. A indiferença pelo outro-que-não-eu já se revela algo tão onipresente nessa atmosfera, que se torna patente, p. ex., numa cena em que se descreve a naturalidade com que é especulada a possibilidade de que um ente “querido” venha a morrer numa guerra iminente, ou quando se veem jovens, num comportamento inconsequente e psicopático, atropelando pedestres por nenhum motivo.

Por trás da frieza e desumanidade desse mundo concebido por Ray Bradbury, há um detalhe essencial: esse é um lugar onde livros são proibidos. Sim, possuir o exemplar de qualquer tipo de literatura (científica, religiosa, ficcional, filosófica etc.) é considerado crime da mais alta gravidade. Diante de denúncias ou suspeitas, casas são costumeiramente invadidas por bombeiros, que, nessa sociedade antiliterária e alienada, não mais existem para combater incêndios, mas para provocá-los. Os bombeiros são agora uma combinação de polícia e soldados munidos com lança-chamas, que, além de prenderem os criminosos portadores de livros, queimam todo o material proibido apreendido e a casa onde este foi encontrado — até porque as casas são agora à prova de incêndios espontâneos, de modo que se fez obsoleta a antiga atividade dos bombeiros, que acabou sendo esquecida, apagada de fato, da história que todos conhecem (por meio da TV e do rádio, é claro). Os 451 graus Fahrenheit que dão nome à obra, a propósito, referem-se à temperatura em que os livros ardem em meio às chamas, enquanto são reduzidos a cinzas.

Ao longo dessa trama relativamente ágil, o leitor acompanha os passos do bombeiro Guy Montag, que, de início, sente orgulho de sua profissão. Vê-se que ele experimenta grande prazer, na verdade, toda vez que tem a oportunidade de queimar livros, quaisquer que sejam. Livros que jamais lê — até porque é contra a lei, mesmo para aqueles encarregados de destruí-los. Após conhecer uma personagem que o faz experimentar pela primeira vez a sensação de que é um pessoa vazia, no entanto, um indivíduo vivendo num mundo fútil, consumista, sem sentido, Montag acaba assumindo o risco de ler alguns livros que deveria destruir. Auxiliado pelo velho Prof. Faber, um docente aposentado que ainda se arrisca a manter consigo alguns exemplares particulares, Montag vai entendendo o extremo valor daquilo que rotineiramente destrói. Mais tarde, o bombeiro acaba sendo traído por uma pessoa próxima e, no rumo tomado em seguida, vem a juntar-se a um grupo de intelectuais renegados, amantes declarados de filosofia e literatura, os quais pretendem formar uma resistência aos poderes estabelecidos.

Desinformação na era da informatização

Embora escrito há sessenta anos, o romance de Bradbury aborda, de forma um tanto profética, questões que são bem atuais, na verdade. Considerando, p. ex., que no começo da década de 1950 a TV (em preto e branco) era um item comercializado fazia pouco mais de duas décadas, e o jornal impresso era ainda a fonte principal de informação, é interessante notar a aguda percepção do autor ao prever o futuro fetiche humano por imensos televisores, cobrindo as paredes da sala, e a imbecilização coletiva promovida por esse meio de comunicação. Rádios portáteis tipo fones de ouvido são também descritos no livro como um bem de consumo comum, oferecendo entretenimento musical e “informação” a acompanhar dos passos das pessoas — algo que se poderia associar aos modernos iPods, iPhones ou afins. No livro, são essas mídias que dão às pessoas acesso ao que elas precisam saber, tal como devem sabê-lo; isto é, de modo a manterem-se alienadas, fúteis, rasas, consumistas e emocionalmente vazias. E, consequentemente, física e sentimentalmente distanciadas umas das outras. Qualquer semelhança com muito do mundo à nossa volta hoje em dia talvez seja coincidência. Talvez, não.

O fato é que, se é verdade que, em nossos tempos, a internet e as redes sociais deram aos usuários acesso a um mundo de informações disponíveis em quantidade sem precedentes, por outro lado, também é verdade que o bombardeio e as megatrocas de informações alienantes, inúteis e fomentadora de comportamentos meramente consumistas jamais estiveram tão em alta. Facebook, Orkut, Twitter e afins estão abarrotados de mensagens religiosas, comentários inanes sobre trivialidades, postagens que evidenciam persistentes preconceitos machistas, homofóbicos, classicistas, xenofóbicos etc., futilidades sobre a vida das celebridades, e tudo isso escrito, via de regra, com tantos problemas ortográficos e sintáticos que denunciam o número alarmante de analfabetos funcionais que, dia a dia, utilizam essas redes.

Em outras palavras, a inclusão digital colocou uma quantidade impressionante de pessoas de todas as faixas etárias diante do computador, partilhando e recebendo informações, na maioria das vezes por meio de mensagens ou textos — ou seja, por via da escrita, para fins de leitura. Mas o que se lê e o que se escreve, e como se o escreve, refletem a dimensão do problema que se manteve inalterado: o acesso ao computador e à internet não implicou um esperável aprimoramento dessas competências, nem sequer se traduziu na assimilação de conteúdo informativo com a ampla difusão que se poderia imaginar e desejar. O fato é que, se decerto há hoje muitos tendo contanto com conteúdos valiosíssimos que atualizam o seu conhecimento e o aprimoram, de forma imediata e gratuita, através da internet, por outro lado, é triste constatar que aqueles que têm ido atrás de mais e mais informação online são, normalmente, pessoas que já se interessavam antes por estudar e aprender. Para a maioria dos que se encontravam alienados, a inclusão digital apenas abriu as portas para mais alienação compartilhada.

Além disso, há um efeito colateral a ser considerado: o acesso à internet e, em especial, às redes sociais tem um reconhecido caráter viciante. As horas passadas diante da tela do computador, compartilhando banalidades, tem tido um conspícuo impacto negativo na produção acadêmica ou artístico-intelectual, nas horas disponibilizadas para os estudos e na leitura de bons livros (impressos ou digitais, não importa). A taxa de leitura dos que dos que passam um longo tempo diário nas redes sociais acaba sem dúvida afetada, se não terrivelmente prejudicada. Quer dizer, quantos de nós (eu mesmo me incluo aqui) já não nos vimos na situação em que tínhamos plena consciência de que precisávamos estar trabalhando num livro, ou num TCC, ou num artigo, ou na leitura de algo imprescindível ou culturalmente enriquecedor, mas estávamos ali, olhos grudados à telinha, compartilhando imagens com frases legais, dando um “joinha” nas fotos de alguém, curtindo o status de Fulano etc.? É claro que podemos muitas vezes salientar que não estávamos fazendo coisa vã e sem conteúdo. Estávamos, quem sabe, participando de uma discussão séria num grupo formado só por gente séria.

Isso é algo que não raro ocorre e justifica algumas dessas horas sentados diante do PC. Sem dúvida. E não questiono — até mesmo porque também assim procedo — a importância da participação nesses grupos ou discussões. Mas há uma questão de prioridades que deve ser levada em conta. É necessário me policiar para ver até que ponto as redes sociais estão me atrasando ou prejudicando com relação a outros afazeres importantes. O fato, no entanto, é que todos nós (ou quase todos nós) já exageramos nessas intermináveis surfadas online. Estamos bem cientes disso. E o fizemos porque, como dito antes, a internet vicia.

Daí, voltamos à questão dos que já não têm um hábito de leitura fomentado e de como esse efeito viciante da internet só tem a tornar o problema ainda mais complicado, difícil de se resolver. Afastados da leitura, não é somente o domínio da boa escrita que se mantem prejudicado; é o próprio intelecto que se mantém débil, fragilizado pela falta de estímulos que poderiam aguçar a razão, tornar mais acurada a capacidade de avaliar e julgar, as habilidades mentais de cada indivíduo de projetar, conceber, conjecturar. O conhecimento é a pedra que amola a lâmina do senso crítico. Se algo impede ou prejudica o acesso a ele, tanto pior para o indivíduo, tanto melhor para os que deste se aproveitam.

O politicamente correto e seus tons carregados

Outro assunto também destacado em Fahrenheit 451 remete à paranoia do politicamente correto, quando este se converte em paixões extremadas que terminam por dar ensejo à prática de censura. Até porque esta, obviamente, é parte do que ajuda a pavimentar a via que leva à falta de erudição e à ignorância. Acerca do tema, lembro-me de que, há algum tempo, tomei partido numa discussão promovida até nos comentários a um post do Bule Voador, que dizia respeito a propostas de censura de conteúdo racista encontrado na obra de Monteiro Lobato. Eu fui contra. Fui e continuo sendo contra qualquer proposta de censura. E, não, eu não sou a favor do vale-tudo que alguns advogam por aí, sob a bandeira da defesa da liberdade de expressão, quando o que de fato querem é permissividade para propagarem impunemente a homofobia, a misoginia, o racismo etc. O fato é que não entendo que liberdade de expressão tenha a ver com isso. Liberdade de expressão, ao meu ver, não pode ser algo confundido com o direito de dizer o que bem se quiser, sem o dever de arcar com a responsabilidade pelo que é dito. O nome disso é, no mínimo, molecagem e infantilismo, não liberdade de expressão.

Para que fique bem claro: eu sou contra, terminantemente contra, censurar, p. ex., um jornalista que escreve que um político roubou tantos milhões dos cofres públicos, ou que o artista Fulano de Tal já estuprou uma menina quando ainda não era uma celebridade, ou qualquer coisa do tipo. Censura, não. Creio que esse profissional deve ter toda liberdade do mundo para denunciar essas coisas. Agora, isso não significa que ele não tenha de arcar com o ônus da prova, de apresentar ao menos indícios fortes que sustentem a acusação. Não se pode praticar uma calúnia, atribuindo a outra pessoa uma conduta tipificada como crime, o que tem óbvias e enormes consequência na vida de tal pessoa (sejam estas morais ou materiais, sejam profissionais ou pessoais ou familiares), e ao mesmo tempo querer se isentar de oferecer qualquer evidência que corrobore o que afirma, sob o pretexto de que se está exercendo a sua liberdade de expressão. Isso não é liberdade de expressão. E as sanções que esse hipotético jornalista poderia sofrer em virtude de uma conduta caluniosa não constitui censura.

Claro que existem outros exemplos de condutas e de vítimas, mas esse — da calúnia — me parece bem didático e ilustrativo. Penso que quem tem dificuldade em entender isso é, aliás, exatamente o tipo de pessoa que tem a ver com todo este texto: alguém que está precisando ler mais um pouco. Aprender mais. Raciocinar mais e seguir menos o que leu em algum fonte reacionária que encontrou por aí — fonte cuja existência eu defendo, a propósito, pela boa saúde da democracia, que precisa dar espaço às opiniões divergentes. (Aliás, é algo um tanto curioso que reacionário e libertário se tenham tornado sinônimos em muitos discursos com que nos deparamos hoje em dia. Obviamente, isso não faz justiça a muitos liberais ou libertários que conheço, que de reacionários não têm nada, felizmente. E coerentemente.)

Enfim, considerados os detalhes explicitados acima, há realmente um sério problema com o politicamente correto em doses cavalares que redundem em apelos de censura. E isso tem muito a ver com o acesso livre à informação e aos livros. No romance de Ray Bradbury, há uma interessante passagem acerca desse assunto, na qual, Beatty, capitão dos bombeiros, relata a Montag como é que se acabou estabelecendo a política de queimar todos os livros existentes. De acordo com o capitão, tudo se deveu a esses exageros, a essa intolerância passional, e à necessidade de se agradar a todas as partes, abrindo todo tipo de precedentes para a censura:

“As pessoas de cor não gostam de Little Black Sambo? Queime-o. Os brancos não se sentem bem a respeito de A cabana do Pai Tomás? Queime-o. Alguém escreveu um livro sobre o tabaco e o câncer de pulmão? Os fumantes estão em prantos? Queime o livro. Serenidade, Montag. Paz, Montag. Livre-se de seus conflitos. Melhor ainda, jogue-os no incinerador. Funerais são tristes e pagãos? Pois os eliminemos também. Cinco minutos depois de morrer, todo indivíduo é levado ao Grande Crematório, os Incineradores servidos por helicópteros em todo o país. Dez minutos após a sua morte, um homem não é mais que uma mancha de poeira negra. Para que esquentar com indivíduos e suas lápides? Esqueça-os. Queime todos, queime tudo. O fogo é brilhante, o fogo é limpo” (BRADBURY, Ray. Fahrenheit 451. New York: Ballantine Books, 1991, p. 59, tradução minha).

De fato, quando começaram a falar em censurar os livros de Monteiro Lobato por conta de termos racistas encontrados em alguns deles, um dos receios que me passaram pela cabeça foi justamente a indagação: aonde isso vai parar? Boas intenções podem criar precedentes para que coisas terríveis e lamentáveis aconteçam a longo prazo. A literatura nos alerta para isso. A história nos fornece exemplos reais. Por trás da conhecida ideia de ditadura do proletariado, p. ex., decerto há ótimas intenções. As empreitadas históricas para colocá-la em prática, no entanto, revelaram-se desastrosas e criminosas — e os vários fatores que a palavra ditadura implica acabam botando por terra tudo de louvável que o predicado “do proletariado” possa tentar acrescentar ao conceito. (E isto quem reconhece sou eu, um ex-militante de esquerda, que hoje prefere assumir uma postura mais moderada e aberta ao que objetivamente me parece procedente ou aplicável na visão de um lado e de outro, no espectro político-econômico-ideológico.)

Enfim, as leituras nem sempre nos trazem apenas dados positivos. Também há muito de moralmente condenável em muito daquilo que lemos. Ainda assim, é um conhecimento necessário. É imprescindível que leiamos sobre ideias políticas, econômicas, filosóficas, religiosas etc. que pessoalmente rejeitamos, sobre pessoas (reais ou fictícias) cujos valores condenamos, que tomemos conhecimento de narrativas produzidas num contexto que hoje podemos julgar e sentirmo-nos aliviados por nos encontrarmos distantes dele no tempo. É imperioso que assim seja justamente porque toda atitude de desprezo ou negação em relação àquilo cujos argumentos ou ideias optamos de antemão por não conhecer não passa de ignorância. Uma patente atitude de ignorância, ela mesma. Traduzindo: se queremos questionar mais, criticar mais, entender mais… temos de ler mais, de buscar conhecer mais.

Mas como fazê-lo na era da informação e da informatização, quando esta também se tornou a era da alienação em massa e do comportamento viciado em games e redes sociais que acaba roubando preciosas horas que poderiam estar sendo dedicadas à leitura informativa, mesmo no computador? Como lidar com a realidade de que a leitura de um livro, de um artigo, de uma tese pode ter sido abortada pela compulsão por tuitar, compartilhar, curtir, comentar? Censura? Isso não é solução alguma; é apenas criar outro problema. E, sendo bem sincero, assim como já escrevi em outros textos, ao discorrer sobre a tão difundida cultura do anti-intelectualismo e sobre a péssima qualidade da educação pública no Brasil, não faço a mínima ideia de como solucionar o problema aqui apresentado.

No fim, meio desesperançado, fico pensando em tudo isso e recordando outra passagem de Fahrenheit 451, na qual o Prof. Faber fala a Montag sobre a importância dos livros, bem como da disponibilidade de tempo para lê-los e digeri-los. Em suas palavras:

“[V]ocê sabe por que os livros são tão importantes? Porque têm qualidade. E o que essa palavra significa? Para mim, significa textura. Este livro tem poros. Ele tem traços. Poderíamos colocar este livro sob o microscópio. Você encontraria vida sob a lente, movendo-se em grande profusão. Quanto mais poros, tantos mais os pormenores da vida sinceramente registrados que se poderiam encontrar por centímetro quadrado numa folha de papel, e tanto mais ‘literário’ o autor. Pelo menos, essa é a minha definição. Pormenores reveladores. Pormenores recém-descobertos. Os bons escritores tocam a vida com seus dedos, com frequência. Os medíocres apenas esbarram a mão nela, de passagem. Os ruins a estupram e a abandonam às moscas.

Consegue agora perceber por que os livros são odiados e temidos? Eles mostram os poros na face da vida. Os que vivem no conforto querem apenas rostos tipo luas de cera, sem poros, sem pelos, sem expressão. [...]”

“E qual é a segunda coisa [que nos falta hoje]?”

“Lazer.”

“Ah, mas nós temos muitas horas de folga.”

“Horas de folga, sei. Mas e tempo para pensar? Se você não está dirigindo a cento e sessenta quilômetros por hora, numa velocidade em que não consegue pensar em mais nada senão no perigo, então está concentrado em algum jogo ou sentado numa sala onde não pode discutir com seu televisor de quatro paredes. Por quê? O televisor é ‘real’. Ele está ao seu alcance, tem dimensão. Ele lhe diz o que pensar, lhe enfia tudo goela adentro. Deve ser assim, não é? Parece estar tão certo. Ele o empurra tão rápido para as próprias conclusões que apresenta, que sua mente não tem nem tempo de protestar: ‘Mas que besteira!’” (BRADBURY, op. cit., p. 83, tradução minha).  

No fim, resta só o vácuo interior. O receio de que, talvez, quem sabe — e quem o poderia saber? —, já estejamos vivendo numa distopia. Apenas na típica ignorância disso. 

 

“Você não precisa queimar livros para destruir uma cultura. Basta fazer com que as pessoas parem de lê-los” (Ray Bradbury, num comentário sobre seu famoso romance).

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Sobre Camilo Gomes Jr.

Mineiro (hoje residente na Paraíba), casado, pai de uma linda mocinha. Sou escritor (autor de "Em memória", Cepe, 2011 — por ora, trabalho num romance e num livro de contos) e um leitor compulsivo, músico amador, estudante de Direito (UEPB). Também cursei os Bacharelados em Linguística e Tradução do curso de Letras da UFOP. Tenho grande interesse por literatura e pelas mais variadas áreas científicas, sobretudo por pesquisas em Neurociências, Psicolinguística, Ciência Cognitiva, Biologia e Antropologia. Enfim, sou um homem que se encontrou na dupla paixão pela literatura e pelas ciências.
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